Fluminense 0 x 0 Flamengo – 90 minutos a menos de vida
Torcida Tricolor,
Literalmente, foi uma grande perda de tempo (fazendo uma alusão ao título do post). Gastei quase toda a noite do meu domingo assistindo ao pior Fla-Flu da história (pelo menos, da minha história como torcedor…). Um jogo o qual a tônica foi o medo. Medo de atacar, medo de se expôr, medo de arriscar e, principalmente, o medo dos dois treinadores de perderem seus cargos, já que dois treinadores “top” estão disponíveis (Luxemburgo e Muricy).
Não que eu ache que o Parreira, a essa altura da vida profissional, tenha tanto apego assim a seu cargo. Porém, como tricolor que é e envolvido, indiretamente, nesta briga política que vivenciamos no Fluminense, ele está metido no cabo-de-guerra entre Horcades e Celso Barros. E, junto dele, estamos nós, torcedores, sofrendo com uma temporada que tinha tudo para ser brilhante, mas que, de início, já se revelava um fracasso. Então, se há algum amor do Parreira ao cargo, é para se manter um projeto que ele julga primordial, que é o estabelecimento de uma estrutura sólida para o futebol profissional. E, sem Parreira e sua “grife”, as chances de se ter um encaminhamento neste sentido a curto prazo diminuem muito para nós, tricolores…
Foi um jogo de intermediária. Jogo de “perde-e-ganha”: o círculo vicioso de passes errados, roubadas de bola e mais passes errados. Um jogo o qual os goleiros praticamente não trabalharam. Um jogo que, curiosamente, tinha em seu grande chamariz o duelo Adriano x Fred. E que terminou em um 0×0 melancólico.
O Fluminense não consegue fazer gols. Continua sendo o pior ataque do campeonato, em oito rodadas, e a terceira melhor defesa, com apenas 8 gols sofridos (descontando o “ponto fora da curva” que foi o 4×1 para o Santos, a média é muito boa, sendo que em 5 partidas – São Paulo, Barueri, Botafogo, Grêmio e Flamengo – não fomos vazados). E, batendo na mesma tecla, porque temos um desequilíbrio crônico, que é um meio-campo sem a “propulsão” necessária para descolar o time de trás e fazê-lo chegar, de forma compacta, à frente.
E, colcoando o dedo ainda mais na ferida, falta também pararmos de passarmos a mão na cabeça de jogadores como o Conca, que mais uma vez aceitou a marcação feita pelo Toró (???) e apareceu pouquíssimo em campo, tendo sido justamente substituído por Alan.
A proposta de Parreira era trancar o jogo, cercar Ibson e evitar os deslocamentos dos alas Juan e Léo Moura. Forçando o afunilamento do jogo, a marcação à dupla de ataque rubro-negra, principalmente em cima do Adriano, estaria facilitada. A estratégia de defesa era realmente boa. O problema é fazer o time atuar de forma competente também no ataque, já que Cuca, que não é bobo, colou o Williams no Thiago Neves e o Toró no Conca, matando toda a nossa criação e isolando Fred entre os zagueiros Welinton e Fabrício.
Como nossos dois laterais são extremamente limitados e medrosos (João Paulo até fez uma partida razoável, mas poucas vezes passou do meio campo, e Mariano morreu de medo de deixar uma avenida a ser explorada pelo Juan, assim como aconteceu na final da Taça Rio, e também pouco se projetou, principalmente no segundo tempo), e os demais componentes do meio tricolor têm características mais defensivas que ofensivas, o jogo ficou ”trancado” na maior parte do tempo, e o 0×0 foi até um placar previsível (importante ressaltar a mudança em cima da hora no Fluminense, com a entrada de Fabinho no lugar de Marquinho, desde o início).
O Fluminense foi melhor no primeiro tempo, principalmente nos vinte primeiros minutos. O time estava mais encorpado do que das outras vezes, e Diguinho dominava o setor de meio-campo, anulando Ibson. Em uma tabela muito bonita entre Conca e Fred, o atacante tricolor ao invés de rolar de lado, no último passe para nosso meia, resolver bater em gol, sem muita direção (não seria a única vez que a tal “individualidade do artilheiro” iria se voltar contra nós mesmos). Edcarlos também perdei uma boa oportunidade, ao receber pelo lado esquerdo e chutar forte, para uma difícil defesa de Bruno (no prosseguimento da jogada, não tivemos nenhum jogador pronto para pegar o rebote).
O Flamengo só chegou em três situações, duas das quais muito mais relacionadas ao acaso: Everton foi cruzar uma bola pela esquerda, que bateu em Edcarlos e descaiu dentro do gol tricolor. Mas, felizmente, Ricardo Berna estava atento e fez uma difícil defesa, espalmando para escanteio; em outro lance, uma bola centrada para a área foi cabeceada por Adriano, tentando encobrir Berna: nosso goleiro anteviu o lance, se antecipou e, como um gato, saltou bloqueando a bola no ar (que diferença para Fernando Henrique, que possivelmente sequer sairia do gol…).
A chance mais perigosa do Flamengo foi em uma jogada entre Emerson e Ibson. Um contra-ataque que pegou, mais uma vez toda nossa defesa em linha, um pouco depois do meio-campo. Adriano, em impedimento, saiu do lance negando participação, e Ibson arrancou perseguido por Wellington Monteiro. No momento em que o jogador rival se preparava para finalizar na frente de Berna, nosso volante deu uma desequilibrada providencial (foi na base da experiência) no rubro-negro, que chutou para fora.
Fred ainda teria uma ótima chance, após um lançamento sensacional de Thiago Neves, que colocou a bola no peito do atacante tricolor. Porém, Fred demorou um pouco para finalizar e, acossado pela dupla de zaga rubro-negra, acabou chutando para fora.
Falando em Thiago Neves, esta foi a sua última partida com a camisa tricolor. Irá para a Arábia Saudita, atuar pelo Al-Hilal. Mostrou um pouco mais de disposição, tentando algumas jogadas individuais e aparecendo mais para o jogo. Mas é impressionante a falta de qualidade nas bolas paradas. Sejam escanteios ou faltas, o aproveitamento dos jogadores do Fluminense é péssimo (não sei aonde o Fred inventou que sabe bater faltas…). Enfim, Thiago Neves não estava jogando absolutamente nada, e com a contusão de Leandro Amaral (voltou a se queixar de bloqueio articular no joelho recém operado, e nem ficou no banco nesta partida…), o ideal seria se testar algum velocista (Kieza não seria uma boa opção?) para tentar movimentar o time na frente, abrindo espaços.
No segundo tempo, o Flamengo alugou meio-campo. O Fluminense recuou muito e cedeu espaços, levando uma pressão que não precisaria ter acontecido. Mesmo assim, no início da etapa complementar, em uma tabela entre Fred e Edcarlos, nosso atacante, ao invés de deixar o zagueiro na cara do gol, preferiu chutar, torto, para fora, perdendo, talvez, a melhor chance do Fluminense no jogo.
Dali em diante, o Flamengo mandou na partida. Ricardo Berna quase estragou sua boa atuação com duas besteiras: a primeira, ao sair caindo na bola antecipando Adriano, deslizou e acabou soltando no pé de Emerson que driblou-o e bateu fraco, para Edcarlos salvar em cima da linha. Depois em uma saída errada do gol, onde catou borboleta, a bola cruzou toda a área e Ibson cruzou para a cabeçada de Adriano que, atrapalhado por Luiz Alberto (e fazendo falta em nosso zagueiro) cabeceou por cima.
Mas Berna faria bonita defesa em chute de longe de Ibson e, em escanteio, Fabrício quase marcou para o rival em um cochilo da zaga, quepermitiu o toque de cabeça de Adriano para o meio da pequena área (o zagueiro do Flamengo testou para fora).
Mais duas chances para o Flamengo aconteceram na segunda metade do segundo tempo: um chute forte de Emerson para defesa difícil de Berna, e um cruzamento de Juan onde a bola cruzou toda a área, veio a finalização de Léo Moura já dentro da pequena área, e uma difícil defesa de Berna (na hora, achei que a bola tinha batido na trave).
Os treinadores resolveram mexer por volta dos 35 do 2º tempo (o medo de ousar…). Cuca colocou Petkovic, e deu pena do gringo. Não é nem um fiapo daquele jogador insinuante, habilidoso, que foi… a entrada dele, na verdade ajudou o Fluminense, pois quebrou a velocidade de meio-campo que o Flamengo vinha impondo. Parreira respondeu colocando Alan no lugar de Conca e Marquinho no lugar de Wellington Monteiro. Logo depois, Cuca tirou Léo Moura e colocou Everton Silva na lateral direita.
Na prática, nenhuma das substituições surtiu algum efeito. Alan ainda conseguiu sofrer uma falta, pateticamente cobrada na barreira (mais uma…) por Thiago Neves. Bruno também mandou por cima uma falta quase na meia lua, em uma jogada a qual Emerson, que vinha atrás, conseguiu passar no meio de Edcarlos e João Paulo, lembrando o gol de Muriqui na partida contra o Avaí (nosso zagueiro levou cartão amarelo e, vale a pena ressaltar, felizmente o árbitro Sálvio Spindola nos deu uma ajuda, dando o terceiro cartão em Luiz Alberto, ainda no primeiro tempo, e tirando-o do jogo contra o Corinthians).
Marquinho ainda arrumou tempo para ser driblado por Ibson dentro da grande área (impressionante como esse jogador não consegue fazer uma partida decente…), que invadiu e bateu cruzado. A finalização, mesmo em impedimento, de Adriano, simbolizou o que foi a partida: um toque patético, quase que pisando na bola, com o gol aberto, foi o momento “bola murcha” de um jogo que pretendia ser um duelo de dois grandes atacantes, de nível mundial, mas que representou tão somente o “mais do mesmo” que estamos nos acostumando a ver não só em clubes, mas em seleções: a tendência da “superpopulação” dos meio-campos, com três cabeças de áreas em cada time, e um nível técnico baixíssimo.
O medo venceu a esperança, como diria Regina Duarte… agora só voltamos a campo no dia 08/07. Esperamos que Parreira solucione o problema na frente. Continuamos patinando no campeonato, estamos em 13º lugar, 3 pontos do “G-4 do bem”, mas apenas 2 pontos do “G-4 do mal”… e a tabela nos reserva, para o mês de julho, quatro partidas fora (contra Corinthians, Internacional, Atlético-MG e Palmeiras) e três em casa (Santo André, Goiás e Cruzeiro).
Ou a gente se mexe, ou estaremos entrando em agosto com o time na zona de rebaixamento, e com um novo treinador…
Saudações Tricolores!
Análise perfeita, coletiva e individual; foi exatamente o jogo que vi. Mas, sinceramente, achei uma boa sacada de última hora de vestíário a entrada surpresa com 3 volantes, já que o Framengo congestiona demais esse setor. Diante das circunstâncias – ainda faltam Fabio Santos, um meia de ligação;talvez Rosinei – acho interessante jogar com 3 volantes em certos jogos.
Eu não assisti a essa partida.
Preferi dar atenção a minha família. E, dessa forma, saí lendo tudo a respeito do que ocorrera.
Gostei da colocação no segundo parágrafo, e aí é que reside a necessidade da permanência do Parreira a frente do time. Pelo menos, nos últimos muitos anos, todos os saltos de qualidade do Fluminense envolveram o nome do Parreira. Se, com sua grife, ele conseguir dotar o FFC de um moderno CT, estaremos ganhando.
Do jeito que o time vem jogando, ainda acho que a briga do Flu será da décima colocação para baixo.
Vamos torcer para que a comissão técnica consiga fazer uma boa inter-temporada, agora nos próximos 10 dias, antes da partida com o Corinthians e o time possa dar um salto de qualidade.
Só acrescentando:
1)a escalação de 3 volantes, desde que todos saibam jogar bola, não é absurda. Não se pode colocar 3 brucutus no meio e deixar que o quarto homem seja o único responsável pela armação. Dessa forma, estaremos ferrados, porque o adversário gruda alguém nessa cara, sabendo que os outros serão incapazes de armar algo. Aí, já era criação;
2)Diguinho ainda está sem fôlego para dois tempos de jogo. Precisa apurar a forma o mais rápido possível;
3)eu tenho achado o Conca mais parecido com uma enceradeira. Está rodando muito sem sair do lugar. Cadê aquelas enfiadas de bola do ano passado ? Os passes inteligentes ? O chute de fora da área ?
4)esse time chuta muito pouco de fora da área. Muito mesmo;
5)o Parreira precisa descobrir um cobrador de faltas pela direita e outro pela esquerda. Se não existe, colocar os jogadores para treinar. O Flu não pode perder oportunidades nesse quesito. E, para emendar, não esquecer os escanteios, pois o aproveitamento tem sido abaixo da crítica.
Grandes e profundas análises, Maurício!
Meus parabéns pelo trabalho que vem sendo feito.
Abraços, Alexandre.
Alexandre,
Muito obrigado pelas palavras carinhosas.
Eu também gosto demais do trabalho de pesquisa e estatísticas que você vem fazendo. Vale a pena pensar em, futuramente, lançar um livro.
Grande abraço,
Maurício.